30/05/2011
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GOVERNO DOS BANCOS. Democracia sequestrada
Quando chegar o dia 5 de Junho, os cidadãos portugueses vão ser chamados a eleger o poder legislativo. Mas, salvo qualquer surpresa, o verdadeiro poder de legislar terá já sido entregue, por vários anos, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF).
Este rumo era previsível a partir do momento
em que o poder político, pressionado pelo poder
financeiro, enveredou pelas medidas austeritárias.
Mais previsível ainda se tornou quando o governo e
todo o arco da austeridade, reagindo à escalada da
pressão transformada em sequestro, convidaram o
sequestrador a assumir as rédeas da governação.
A crónica deste sequestro da democracia era
anunciada desde que, com a mais recente crise
internacional, a especulação se virou para as
dívidas dos Estados periféricos da Zona Euro, com
economias mais vulneráveis. Só a construção de
entendimentos entre esses países periféricos,
acompanhada pela recusa, no plano nacional, de
transferir para os cidadãos o pagamento de uma
crise originada na esfera financeira e na captura
dos recursos públicos pelos interesses privados,
poderia ter permitido trilhar um caminho
alternativo. Aqui chegados, há quem considere que
um cenário possível é ficar à espera da degradação
da situação económica e social, até se atingir
colectivamente o fundo do poço − uns quantos porque
beneficiam directa e indirectamente dessa
degradação; muitos outros apenas por
desconhecimento, inércia ou profundo desalento.
Mas para quem não se revê nessa postura, ou deseje
ganhar ânimo para dela sair, só o fortalecimento de
iniciativas e movimentos sociais, com a diversidade
de configurações que os cidadãos quiserem e forem
capazes de lhe imprimir (da rua e locais de
trabalho às redes sociais e cabinas de voto),
poderá abrir a esperança de vermos o poder
político, por pressão ou convicção, assumir a
recusa da austeridade e da intervenção externa. E
de o vermos enveredar por uma resposta à crise que
passe por políticas públicas de revitalização da
economia e do emprego, de redistribuição de
rendimentos e de aposta nos serviços públicos e no
Estado social, que são as bases de uma sociedade
decente e de uma economia moral.
Sem isso, qualquer «união» é vazia e cega, seja ela
europeia ou nacional. Os consensos que infernizam a
vida da maioria das pessoas tenderão a resultar em
conflitos. Em vez de coesão, essas «uniões» e
«consensos» só aumentam a corrosão, seja ela social
ou territorial. Sabem-no bem os gregos e os
irlandeses − como antes deles tantos
latino-americanos e leste-europeus −, porque têm um
ligeiro avanço em relação a Portugal no
«salvamento» que lhes foi imposto. Sabem que o
«salvamento» não melhora nenhum dos seus
verdadeiros problemas, mas continua a agravar
muitos outros.
Estas experiências, já impostas em diferentes
tempos e espaços, deviam fazer com que se
aprendesse o que parece ser óbvio: o choque
neoliberal, apesar da sua retórica salvítica, é
desastroso para as economias e para as sociedades.
Em vez disso, prefere-se ocupar o espaço público
com o matraquear das mesmas ideias e receitas
neoliberais, com a cumplicidade de um poder
político que ergue a estranha bandeira da
impotência ou da iníqua defesa do reforço dos
privilégios. Ao que se junta a conivência de uma
comunicação social que está mais atenta ao
«pluralismo de opiniões» dentro da famosa troika do
que dentro da sociedade. Eis algumas dessas ideias
e receitas que são repetidas à saciedade.
Uma delas é que, se é certo que o plano para
Portugal vai ser mais duro do que noutros países da
União Europeia, isso acontece porque o FMI/FEEF
devia ter sido chamado mais cedo. É claro que, se
tivesse sido chamado mais cedo, o argumento
mostraria a sua plasticidade: para funcionar, basta
que a culpa seja sempre do que aconteceu antes do
início da intervenção externa.
Uma outra ideia é a de que a recapitalização do
sistema bancário é fundamental para a revitalização
da economia e que é por isso que o sector ficará
com uma parte significativa, a seguir ao pagamento
da dívida, da «ajuda» a conceder. Pouco importa,
portanto, que tenha sido o sistema financeiro a ter
originado a crise e que, passados quatro anos,
continue a não se fazer rigorosamente nada para a
sua reforma e regulação. O que é preciso é
conseguir impor todos os sacrifícios aos
contribuintes para alimentar chorudos lucros
bancários, se possível conseguindo a proeza de não
ter de ouvir ninguém chamar a esse resgate uma
«ajuda interna» − na verdade, ela é praticada pelos
Estados, através dos contribuintes, e é destinada a
salvar o sistema financeiro.
Outra ainda é a ideia de que o Estado social é
necessariamente «gordo», «monstruoso», «ineficaz»,
precisando por isso de uma cura que o torne «ágil»
e «moderno»… mas não se pode dizer muito sobre cada
uma das reformas sem estudar tudo muito bem, pois
elas podem ser duras para alguns sectores. É certo
que estas ideias e medidas, puramente ideológicas,
esquecem qualquer consideração crítica ou evidência
empírica sobre uma pretensa maior eficiência dos
privados. É certo também que ignoram de forma
consciente o papel central que a associação entre
fiscalidade progressiva e serviços públicos, que
devem ser universais e gratuitos, desempenha na
lógica subjacente ao contrato social em que
assentam as democracias. Mas, mais do que isso,
estas ideias encobrem o que está de facto em curso,
aliás há várias décadas, e que é um programa de
contínua extensão do projecto neoliberal, no quadro
do qual a disputa do Estado (não o seu
desaparecimento) e a apropriação dos recursos
públicos são peças centrais para a formação dos
lucros das grandes empresas e para a alimentação de
todos os rentismos.
Uma última ideia é a de que a «ajuda» não vai ter
grandes resultados ao nível da diminuição do
desemprego ou da recuperação da economia e que se
calhar também não vai permitir resolver o problema
do pagamento da dívida, apesar de teoricamente ser
esse o objectivo de quem «chamou» o FMI/FEEP. Mas
também, apressam-se a acrescentar, tendo o pedido
chegado tão tarde, tendo o país um sistema bancário
tão descapitalizado e um Estado social tão «gordo»…
não esperavam milagres, não é? Pois, milagres não.
Só seria de esperar que não se cometesse o erro
brutal de, num país há muito devastado por
crescentes desigualdades e desprotecções sociais, e
cada vez mais condenado por uma União Europeia que
despreza a coesão entre os seus membros, não se
piorasse a situação da esmagadora maioria dos
cidadãos recorrendo a ajudas que matam.
Até às eleições de 5 de Junho, as informações que
formos tendo sobre o reforço da austeridade no
quadro da intervenção externa vão ter em comum o
facto de anunciarem como inevitável uma progressiva
e rápida perda de autonomia por parte dos poderes
públicos, bem como de cada cidadão, na sua vida
profissional e pessoal. A austeridade, que começou
por ser sentida sobretudo como quantitativa, vai
agora mostrar a sua dimensão qualitativa, limitando
a capacidade dos sujeitos (individuais ou
colectivos) para fazerem escolhas, para serem
responsáveis e responsabilizados, em suma, para se
construírem e serem reconhecidos como sujeitos
autónomos e livres. Nunca um Maio, um maduro Maio,
fez tanta falta.
sexta-feira 6 de Maio de 2011
Artigo tirado do sitio web portugués de ‘Le
Monde Diplomatique’, maio de 2011]
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