• Número 414
  • 03 de decembro de 2018

Corpos repressivos

Galiza, umha fábrica de profissionais da violência

O vídeo é um claro exemplo de como os grandes médios empresariais espanhóis intentam limpar de jeito sistemático a imagem dos “corpos e forças de segurança do Estado”

Em um recente vídeo publicado polo jornal espanhol El Pais noticiava-se que Ourense era a província do Estado Espanhol com a taxa mais alta de Guardas Civis. Segundo dados do ano 2017, Ourense aportava 7,35 agentes por cada mil pessoas nascidas na província colocando-se com este dado à cabeça do Estado. Lugo, com umha taxa de 5,61 ficava na quinta posiçom. As outras duas províncias galegas, embora tenham cifras mais discretas, também estavam por arriba da média do Estado. Sem dispor de dados tam atualizados, nos últimas décadas a juventude galega também estava entre as que mais nutriam à Polícia Nacional espanhola.

O vídeo é um claro exemplo de como os grandes médios empresariais espanhóis intentam limpar de jeito sistemático a imagem dos “corpos e forças de segurança do Estado”. Neste caso, tenhem o trabalho de limpar umha longa e sanguinária história que o corpo militar tem no nosso País, além se serem os responsáveis de numerosos ataques contra o independentismo galego, nomeadamente nas operaçons Jaro I e II.

No vídeo entrevistam a vários agentes da Guarda Civil de origem galega onde falam sobre os motivos polos que decidiram serem Guardas Civis. Um deles explicava o porquê do seu desejo de ser agente: “Aqui em Ourense as saídas profissionais que te deem um pouco de estabilidade pessoal nom é que sejam doadas de todo como noutras zonas de Espanha que pode haver mais possibilidades. Entom, esta via era umha opçom a ter moi em conta”. Outro agente diz: “vás a ter um trabalho seguro, um trabalho fixo”.

Este documento, que se poderia denominar etnográfico, mostra claramente algumhas das chaves para entender o fenómeno: dificuldade para obter um trabalho estável que só garante neste país o funcionariado. A polícia é deste jeito o funcionariado das classes baixas, desprovistas das redes sociais de apoio para a promoçom e capital cultural herdado necessários para o êxito académico. De todos jeitos, este perfil está-se a modificar pouco a pouco, abrangendo cada vez a mais pessoas com estudos superiores.

Mas como lembra um deles, “aqui estamos tranquilos porque a Guarda Civil leva a trabalhar muitíssimos anos. Ganhaste-te a confiança da gente”. O facto de a Guarda Civil estar bastante bem vista na Galiza também influi no alto número de agentes galegos. É óbvio que um povo onde o nacionalismo nom só tem relativamente pouco peso eleitoral, senom que tampouco foi capaz de criar umha comunidade nacional sólida onde fazer valer os seus valores grupais, nom vai apresentar umha forte rejeiçom moral ao trabalho nas fileiras da polícia espanhola.

Sipaios galegos

Os sipais (cipais, sipaios ou cipaios, do híndi shipahi, “soldado”) eram soldados indianos que serviam no exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, sob as ordens de oficiais britânicos. Mais adiante, o nome generalizou-se e passou a empregar-se para designar aquelas pessoas pertencentes a umha colónia que, no entanto, serviam às forças do estado dominador. À vista destes dados podemos falar de algo assim como um “sipariado galego”. Num breve percurso histórico, os galegos (e o masculino é justificado) foram sempre umha força maioritariamente nas tropas, ora de Castela, ora de Espanha.

Pode-se afirmar que o fenómeno sociológico descrito habitualmente para as elites galegas também serve para o estamento “guerreiro”. Historicamente, após vários fracassos de forja de um projeto nacional burguês, a válvula de escape que preconfigurou o poder (de Castela ou de Espanha) para as elites foi a salvaçom e promoçom individual. É dizer, um político ou empresário galego pode triunfar “em Madrid” mas nom como galego e na Galiza. Mas para as classes médias-baixas, que engrossam principalmente as instituiçons da violência espanhola, o principal recurso de trabalho e obtençom de ganhos do que disponhem é o seu próprio corpo e trabalho. Assim, passar a trabalhar nos corpos repressivos, os subterrâneos da Administraçom, é a saída simétrica à das elites culturais que acham no funcionariado o seu principal destino.

Robert Lafont sinalou que é habitual nas colónias internas o facto de estarem pobremente industrializadas pola sua condiçom rural, e a administraçom constituir a principal “empresa” e introdutora de capital na zona; à vez que, evidentemente, emprega à maioria das elites regionais. Bourdieu acrescentou a esta análise o facto de ser a administraçom o principal veículo de promoçom individual, origina umha grande fidelidade destes indivíduos aos seus códigos e símbolos; dito de outro jeito, desativa e canaliza cara a promoçom pessoal os desejos emancipatórios do coletivo. A Guarda Civil, o exercito e a Polícia seriam apenas a porta de atrás.

Outro facto fulcral é o de que na Galiza, como analisou o antropólogo Marcial Gondar, apresenta ainda maioritariamente umha visom pré-moderna do Estado, entendido como umha maquinaria extratora de bens, um leviatám que resulta totalmente alheio ao povo; e nom umha res pública, um instrumento de garantia dos direitos da cidadania, tal e como se entende desde umha visom moderna. Assim as cousas, poder botar mao de um amigo ou um familiar para conseguir um emprego, ou trabalhar na polícia espanhola, nom é visto como umha falta moral, senom que se justifica em aras de poder beneficiar-se dessa máquina alheia, de extracçom de bens.

Franz Fanon entendia a violência como umha arma privilegiada para o colonizado que, empregando-a, invertia bruscamente os roles com o colonizador, funcionando como umha autêntica terapia psicológica para desprender-se do auto-ódio e do sentimento de inferioridade. Mas este acesso à violência, instrumento poderoso e quase sagrado, também se pode regular para conter as pulsons emancipatórias dos dominados. Deixá-los participar dela, embora seja em todo momento numha situaçom subalterna, pode ser também a forma de mantê-los controlados. Ainda temos na cabeça a imagem do escravista que leva o seu criado favorito de caça com ele deixando-lhe até dar algum tiro com a espingarda.

Seja como for, falta por fazer qualquer investigaçom acadêmica e rigorosa sobre as causas deste fenómeno tam característico da Galiza. Até resulta suspeitoso, observar como alguns dos principais achaques que padece o país som sistematicamente obviados nos meios e nas universidades, dando-lhes um verniz de normalidade que resultaria ridículo noutros contextos.

https://www.galizalivre.com/2018/11/30/galiza-umha-fabrica-de-profissionais-da-violencia/